Tell Me If You Still Care

12/02/2016 § Deixe um comentário

1933 Foi um Ano Ruim

11/02/2016 § Deixe um comentário

“Senhor, eu disse, porque naqueles tempos eu era um crente que falava francamente com seu Deus: Senhor, qual é? É isso que você quer? É para isso que você me pôs no mundo? Eu não pedi para nascer. Não tenho absolutamente nada a ver com isso, exceto que estou aqui, fazendo perguntas justas, quais as razões disso tudo, então me diga, me dê um sinal: é esta a minha recompensa por tentar ser um bom cristão, por doze anos de doutrina católica e quatro anos de latim? Alguma vez duvidei da Transubstanciação, da Santíssima Trindade ou da Ressurreição?
Quantas missas perdi nos domingos e dias santos de guarda? Senhor, você pode contar nos seus dedos.
Está fazendo um jogo comigo? As coisas estão desgovernadas? Você perdeu o controle? Lúcifer está de volta ao poder? Seja honesto comigo, porque tenho andado perturbado. Me dê uma pista. A vida vale a pena? Tudo vai ficar bem?”

E não são as dúvidas de Dominic Molise as questões de todos? Trecho de 1933 Foi um Ano Ruimdo John Fante, muito candidato a xodó do ano.

Gimme All Your Love

06/02/2016 § Deixe um comentário

Contos de Amor e Morte

31/01/2016 § Deixe um comentário

“Robert respirou profundamente aliviado, como se estivesse recebendo a concessão de um induto. Seus olhos ficaram úmidos, não pôde controlar as lágrimas e, seguindo um gesto irreprimível, abraçou o irmão soluçando, pondo a cabeça em seu peito. Durante um tempo ficou nessa posição, sentindo como mãos boas, um pouco tímidas, acariciavam de leve seus cabelos, de tal forma que teve de relembrar distantes tempos de crianças e carinhos paternos há muito esquecidos.

Subitamente, porém — ele nem acabara de tomar consciência dessa sensação de proteção — passou-lhe pela cabeça uma ideia: O que significa isso? Por que foi ele que procurou a carta? Porque ele a devolveu? Quer que eu acredite que estou em segurança? Sim. É isso. Ele assume a coisa também sem a carta. Essa carta com certeza já foi vista por outros. Otto fez uma cópia e registrou no tabelião. Não precisa mais do original. Agora pensa que eu não posso lhe escapar. Agora é que ele está me sentenciando definitivamente. Suas mãos acariciaram meu cabelo; não é uma benção; é despedida e veredicto.

Ao mesmo tempo sabia que agora tudo dependia de sua capacidade de não se denunciar. E ficou pendurado no pescoço do irmão tanto tempo quanto foi necessário para se recompor interiormente e para reordenar seus traços na expressão de uma seriedade acalmada. depois se desvencilhou e olhou, alegre o rosto do irmão, que agora mostrava um sorriso pálido, como o de uma máscara. teria Otto nesse instante decidido fazer aquilo para o qual aquela carta, que ele lhe devolvera insidiosamente, lhe dava planos poderes?”

trecho do angustiante “Fuga para a Escuridão”, texto do Arthur Schnitzler sobre a evolução de um quadro de esquizofrenia, incluído no belíssimo Contos de Amor e Morte, cujas histórias romantizam conceitos da psicanálise e despertaram o interesse do Freud pelo autor. Na edição da Cia das Letras — esgotada, claro –, há um trecho de uma carta do psicanalista para o Schnitzler tratando do gosto pelos seus escritos e de sua compreensão da natureza humana.

Dois

31/01/2016 § Deixe um comentário

dois

Via.

Ich bin der Welt abhanden gekommen

03/01/2016 § Deixe um comentário

Que haja saúde e Mahler em 2016.

É Isto um Homem?

26/12/2015 § Deixe um comentário

Quando se trabalha, se sofre, não há tempo de pensar; nossos lares são menos que uma lembrança. Aqui, porém, o tempo é nosso; de beliche para beliche, apesar da proibição, nos visitamos e falamos, falamos. O Bloco de madeira, apinhado de humanidade sofredora, está cheio de palavras, de lembranças e de uma dor diferente. Heimweh, chama-se em alemão essa dor. É uma palavra bonita; significa “dor do lar”.

 Sabemos de onde viemos; as lembranças do mundo de fora povoam nossos sonhos e nossas vigílias; percebemos com assombro que não esquecemos nada; cada lembrança evocada renasce à nossa frente, dolorosamente nítida.

 Não sabemos, porém, para onde vamos. Talvez sobrevivamos às doenças e escapemos às seleções, talvez aguentemos o trabalho e a fome que nos consomem, mas, e depois? Aqui, longe (por enquanto) das blasfêmias e das pancadas, podemos retomar dentro de nós mesmos e refletir, e torna-se claro, então, que voltaremos.

 Viajamos até aqui nos vagões chumbados; vimos partir rumo ao nada nossas mulheres e nossas crianças; nós, feito escravos, marchamos cem vezes, ida e volta, para a nossa fadiga, apagados na alma antes que pela morte anônima. Não voltaremos. Ninguém deve sair daqui; poderia levar ao mundo, junto com a marca gravada na carne, a má nova daquilo que, em Auschwitz, o homem chegou a fazer do homem.

trecho de É Isto um Homem?, um soco no estômago, do Primo Levi,  lido, ainda no mês passado, para a discussão sobre violência, no último encontro do módulo do Filosofia na Praça, com o excelente Newton Bignotto.