Thankful

06/03/2016 § Deixe um comentário

Ease my sadness

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Jeito de Matar Lagartas

06/03/2016 § Deixe um comentário

“Na cozinha, amparou-se na pia para não cair, sabia que, se caísse, o jantar estaria terminado. A imagem do leitãozinho era agora a do filho, o Juninho, com duas azeitonas pretas nos buracos do nariz e duas orelhinhas tenras, boas de serem mastigadas, acompanhadas de um gole de sauvignon blanc. E ela achou que o rôti era um pedaço da coxa de Juninho, tão lindinho no caixão, todo rodeado de flores, o corpo tão morninho quando ela o segurou ainda na rua, para ver a frialdade ir se espalhando, até que ele a olhou fixamente sem mais vê-la. Dona Magdala não conseguiu segurar o choro e deu quase um berro, como o da dor diante do caixão entrando na gaveta do cemitério, naquela tarde tão feia de abril. As pessoas acorreram à cozinha e a encontraram vergada, com a mão na barriga, como se estivesse morrendo envenenada, agachada, diante do forno aberto. A pintura do rosto estava desfeita, os cabelos molhados de suor, como se ela tivesse acabado de correr uma maratona. Ela tentava falar da tristeza que é um leitãozinho morto numa balança de mercado, mas não conseguia.

O resto da noite foi de silêncio absoluto, todos na sala, um ou outro pigarro por causa do vinho que de repente se tornara seco demais, enquanto dona Magdala, deitada em sua cama, medicada por um dos convidados, tentava balbuciar as palavras que ficaram a noite toda presas em sua garganta, com a certeza de que nunca mais faria rôti de porco, com ou sem batatas bravas.”

trecho de “Batatas Bravas”, um dos contos do ótimo Jeito de Matar Lagartas, do Antônio Carlos Viana, cujos outros textos mal posso esperar para ler.

Interessados encontram o livro neste site que a Tatá me apresentou meses atrás.

Gato de biblioteca

06/03/2016 § Deixe um comentário

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Aguardando ansiosa o dia em que  Silas, o gato, passará a dormir menos e a se interessar mais pelos livros.

Do Book Lovers Never Go to Bed Alone.

Tell Me If You Still Care

12/02/2016 § Deixe um comentário

1933 Foi um Ano Ruim

11/02/2016 § Deixe um comentário

“Senhor, eu disse, porque naqueles tempos eu era um crente que falava francamente com seu Deus: Senhor, qual é? É isso que você quer? É para isso que você me pôs no mundo? Eu não pedi para nascer. Não tenho absolutamente nada a ver com isso, exceto que estou aqui, fazendo perguntas justas, quais as razões disso tudo, então me diga, me dê um sinal: é esta a minha recompensa por tentar ser um bom cristão, por doze anos de doutrina católica e quatro anos de latim? Alguma vez duvidei da Transubstanciação, da Santíssima Trindade ou da Ressurreição?
Quantas missas perdi nos domingos e dias santos de guarda? Senhor, você pode contar nos seus dedos.
Está fazendo um jogo comigo? As coisas estão desgovernadas? Você perdeu o controle? Lúcifer está de volta ao poder? Seja honesto comigo, porque tenho andado perturbado. Me dê uma pista. A vida vale a pena? Tudo vai ficar bem?”

E não são as dúvidas de Dominic Molise as questões de todos? Trecho de 1933 Foi um Ano Ruimdo John Fante, muito candidato a xodó do ano.

Gimme All Your Love

06/02/2016 § Deixe um comentário

Contos de Amor e Morte

31/01/2016 § Deixe um comentário

“Robert respirou profundamente aliviado, como se estivesse recebendo a concessão de um induto. Seus olhos ficaram úmidos, não pôde controlar as lágrimas e, seguindo um gesto irreprimível, abraçou o irmão soluçando, pondo a cabeça em seu peito. Durante um tempo ficou nessa posição, sentindo como mãos boas, um pouco tímidas, acariciavam de leve seus cabelos, de tal forma que teve de relembrar distantes tempos de crianças e carinhos paternos há muito esquecidos.

Subitamente, porém — ele nem acabara de tomar consciência dessa sensação de proteção — passou-lhe pela cabeça uma ideia: O que significa isso? Por que foi ele que procurou a carta? Porque ele a devolveu? Quer que eu acredite que estou em segurança? Sim. É isso. Ele assume a coisa também sem a carta. Essa carta com certeza já foi vista por outros. Otto fez uma cópia e registrou no tabelião. Não precisa mais do original. Agora pensa que eu não posso lhe escapar. Agora é que ele está me sentenciando definitivamente. Suas mãos acariciaram meu cabelo; não é uma benção; é despedida e veredicto.

Ao mesmo tempo sabia que agora tudo dependia de sua capacidade de não se denunciar. E ficou pendurado no pescoço do irmão tanto tempo quanto foi necessário para se recompor interiormente e para reordenar seus traços na expressão de uma seriedade acalmada. depois se desvencilhou e olhou, alegre o rosto do irmão, que agora mostrava um sorriso pálido, como o de uma máscara. teria Otto nesse instante decidido fazer aquilo para o qual aquela carta, que ele lhe devolvera insidiosamente, lhe dava planos poderes?”

trecho do angustiante “Fuga para a Escuridão”, texto do Arthur Schnitzler sobre a evolução de um quadro de esquizofrenia, incluído no belíssimo Contos de Amor e Morte, cujas histórias romantizam conceitos da psicanálise e despertaram o interesse do Freud pelo autor. Na edição da Cia das Letras — esgotada, claro –, há um trecho de uma carta do psicanalista para o Schnitzler tratando do gosto pelos seus escritos e de sua compreensão da natureza humana.