Contos de Amor e Morte

31/01/2016 § Deixe um comentário

“Robert respirou profundamente aliviado, como se estivesse recebendo a concessão de um induto. Seus olhos ficaram úmidos, não pôde controlar as lágrimas e, seguindo um gesto irreprimível, abraçou o irmão soluçando, pondo a cabeça em seu peito. Durante um tempo ficou nessa posição, sentindo como mãos boas, um pouco tímidas, acariciavam de leve seus cabelos, de tal forma que teve de relembrar distantes tempos de crianças e carinhos paternos há muito esquecidos.

Subitamente, porém — ele nem acabara de tomar consciência dessa sensação de proteção — passou-lhe pela cabeça uma ideia: O que significa isso? Por que foi ele que procurou a carta? Porque ele a devolveu? Quer que eu acredite que estou em segurança? Sim. É isso. Ele assume a coisa também sem a carta. Essa carta com certeza já foi vista por outros. Otto fez uma cópia e registrou no tabelião. Não precisa mais do original. Agora pensa que eu não posso lhe escapar. Agora é que ele está me sentenciando definitivamente. Suas mãos acariciaram meu cabelo; não é uma benção; é despedida e veredicto.

Ao mesmo tempo sabia que agora tudo dependia de sua capacidade de não se denunciar. E ficou pendurado no pescoço do irmão tanto tempo quanto foi necessário para se recompor interiormente e para reordenar seus traços na expressão de uma seriedade acalmada. depois se desvencilhou e olhou, alegre o rosto do irmão, que agora mostrava um sorriso pálido, como o de uma máscara. teria Otto nesse instante decidido fazer aquilo para o qual aquela carta, que ele lhe devolvera insidiosamente, lhe dava planos poderes?”

trecho do angustiante “Fuga para a Escuridão”, texto do Arthur Schnitzler sobre a evolução de um quadro de esquizofrenia, incluído no belíssimo Contos de Amor e Morte, cujas histórias romantizam conceitos da psicanálise e despertaram o interesse do Freud pelo autor. Na edição da Cia das Letras — esgotada, claro –, há um trecho de uma carta do psicanalista para o Schnitzler tratando do gosto pelos seus escritos e de sua compreensão da natureza humana.

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Dois

31/01/2016 § Deixe um comentário

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Ich bin der Welt abhanden gekommen

03/01/2016 § Deixe um comentário

Que haja saúde e Mahler em 2016.

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