O Escritor e Sua Missão

09/11/2013 § Deixe um comentário

Termino de ler, gastando mais tempo do que o esperado, O Escritor e Sua Missão — Goethe, Dostoiévski, Ibsen e outros, do Thomas Mann, reunião de 12 textos seus sobre colegas de ofício.

À impossibilidade de copiar todo o livro, disponível para visualização parcial aqui, reproduzo trechos mais bacanas de três artigos: o primeiro sobre o lindo e muso Tchekhov, “Ensaio sobre Tchekhov”; a bacana comparação entre Nietzsche e Dostoiévski e a influência das perturbações psicológicas dos dois sobre suas obras, “Dostoiévski, com moderação”; e, por fim, uma fanfarronice do Gerhart Hauptmann, em texto com o nome do autor — de que não tinha ouvido falar até então.

“A atitude imperiosa – e, no entanto, equívoca –  do profeta [ Tolstói ] o irrita. ‘Ao diabo com a filosofia dos grandes deste mundo”,  escreve ele. ‘Todos os grandes  são sábios são despóticos  como os generais e mal-educados como os generais, pois estão invictos de sua impunidade.’ Isso diz respeito principalmente a Tolstói, quando este se pôs a ofender os médicos,  chamando-os de ‘patifes inúteis’.

Pois Tchekhov era médico, médico por paixão, um homem de ciência e que acreditava nela enquanto poder gerador de progresso, grande inimiga das condições miseráveis, esclarecedora de mentes e corações;  e a sabedoria da ‘resistência ao mal”, da ‘resistência passiva’, o desprezo à cultura e ao progresso que o poder se permitia eram para ele lorotas reacionárias. Por mais poderoso que alguém possa ser, nunca se deve lidar com problemas importantes como um ignorante — e é disso que acusa Tolstói.

‘A moral de Tolstói não me comove mais; no fundo do meu coração, não gosto dela’, escreveu Tchekhov. ‘Tenho sangue de camponês e não me impressiono com virtudes camponesas. Desde jovem, sempre acreditei no progresso. A reflexão sóbria e o senso de justiça me dizem que há mais amor ao homem na eletricidade e no vapor do que na castidade e no jejum.”

***

“Doença: antes de mais nada, tudo depende de quem está doente, quem está louco, epilético, paralítico — uma pessoa medianamente tola, em cujo caso a doença prescinde do aspecto intelectual ou cultural, ou um Nietzsche, um Dostoiévski. Em ambos os casos, aquilo que resulta da doença é mais importante e estimulante para a vida e sua evolução do que qualquer normalidade aprovada do ponto de vista médico.

A verdade é que a vida nunca prescindiu da doença, e dificilmente haverá uma afirmação mais idiota do que ‘a doença só pode gerar coisas doentias.’ A vida não é suave com as pessoas, e podemos dizer que ela prefere mil vezes a doença criativa, doença que doa genialidade, doença que enfrentará os obstáculos a cavalo, saltando de rocha em rocha com audaz embriaguez, à saúde que anda a pé.”

***

“Quando nos livrávamos deles, flertava com a garçonete, acusando-a de não o amar de verdade.  Era apenas uma pobre mulher. Mas, cheio de Baco, ele enxergava uma Helena  em cada  mulher. [ HAHAHAH ] E para mim é inesquecível a postura ereta e digna com a qual costumava passar pelos funcionários do hotel que sorriam devotadamente quando voltávamos para lá.”

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