Ratos e Homens

30/09/2013 § Deixe um comentário

“— Conta… como você já me contou antes — disse Lennie, matreiro.
— Contar o quê?
— Aquilo dos coelhos.
— Você não vai me fazer de trouxa.
— Ah, George, conta. Por favor, George. Como antes.
— Gosta disso, não é? Tá bem, vou te contar e depois vamos comer.
A voz de George tornou-se mais profunda. Pronunciava as palavras ritmadamente, como se as tivesse repetido inúmeras vezes antes.
— Os caras como a gente, que trabalham em fazendas, são os sujeitos mais solitários do mundo. Não têm família. Não pertencem a lugar nenhum. Chegam numa fazenda e trabalham até juntarem uns cobres; então vão pra cidade e gastam a gaita toda. Logo depois, a gente fica sabendo que tão sacudindo o rabo em outra fazenda. Eles não podem esperar nada do futuro.
Lennie exultava.
— É isso… é isso… Agora conta como é com a gente.
— Com a gente não é assim — continuou George. — Nós temos futuro. Temos alguém pra conversar, alguém que se importa com a gente. Não temos que sentar num bar gastando a gaita só porque não tem outro lugar pra ir. Se outros caras vão em cana, podem apodrecer na cadeia, porque ninguém liga pra eles. Mas nós não.
— Mas nós não! — interrompeu Lennie. — E por quê? Porque… porque eu tenho você pra tomar conta de mim e você me tem pra tomar conta de você, é por isso. Riu, encantado.
— Agora continua, George!
— Você sabe tudo de cor. Pode até contar você mesmo.
— Não, conta você. Eu esqueço umas coisas. Conta como vai ser.
— Tá bem. Um dia… vamos juntar uma gaita e ter uma casinha e um pedaço de terra, uma vaca, uns porcos e…
— E vamos viver no bem-bom! — gritou Lennie. — E ter coelhos. Continua, George! Conta o que a gente vai ter no jardim e fala dos coelhos nas gaiolas, da chuva no inverno e da estufa, e como a nata do leite vai ser tão gorda que a gente nem vai poder cortar. Conta, George.
— Por que você mesmo não faz isso? Já sabe tudo.
— Não… conta você. Se eu contar não é a mesma coisa. Continua, George. Conta como eu vou cuidar dos coelhos.
— Tá bem — disse George. — Vamos ter uma boa horta, uma coelheira e galinhas. E quando chover no inverno a gente vai dizer que se dane o trabalho e vai acender um bom fogo, sentar perto dele e ouvir a chuva cair no telhado. Bolas! — Puxou seu canivete. — Não tenho tempo pra falar mais.”

trecho de Ratos e Homens, um soco no estômago, do J.Steinbeck. Poucos livros fizeram um retrato tão bonito e simples de coisas como amizade, esperança e sonhos destroçados. Quem ainda não tiver lido encontra o livro grátis aqui.

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Após o fim

30/09/2013 § Deixe um comentário

livros e depois
E não é só a sensação de vazio; é também o pudor de começar a ler outro livro no mesmo dia…

Payback

25/09/2013 § Deixe um comentário

Que monstro!

No que Acredito

25/09/2013 § Deixe um comentário

“A religião, por ter no terror a sua origem, dignificou certos tipos de medo e fez com que as pessoas não os julgassem vergonhosos. Nisso prestou um grande desserviço à humanidade, uma vez que todo medo é ruim.

Acredito que quando morrer apodrecei e nada de meu ego sobreviverá. Não sou jovem e amo a vida. Mas desdenharia estremecer de pavor diante do pensamento da aniquilação. A felicidade não deixa de ser verdadeira porque deve necessariamente chegar a um fim; tampouco o pensamento e o pensamento e o amor perdem seu valor por não serem eternos.

Muitos homens preservaram o orgulho ante o cadafalso; decerto o mesmo orgulho deveria nos ensinar a pensar verdadeiramente sobre o lugar do homem no mundo. Ainda que as janelas abertas da ciência a princípio nos façam tiritar, depois do tépido e confortável ambiente familiar de nossos mitos humanizadores tradicionais, ao fim o ar puro nos confere vitalidade, e ademais os grandes espaços têm seu próprio esplendor.”

 trecho de No que Acredito, do Russell, cuja lucidez nunca deixa de me emocionar.

Na neve

25/09/2013 § Deixe um comentário

igluQuando eu me encher de tudo, em vez de viver de catar conchinha na praia, vou me mudar pra um iglu como esse. Mais fotos aqui.

Footprints

15/09/2013 § Deixe um comentário

Fazia tanto tempo que não ouvia…

O Lado Bom da Vida

03/09/2013 § Deixe um comentário

“Hemingway deveria ter terminado por aí, porque esse era o final feliz que essas pessoas mereciam depois de lutarem para sobreviver à guerra sombria.

Mas não.

Em vez disso, ele cria o pior fim imaginável: Hemingway faz Catherine morrer de hemorragia após dar à luz um bebê natimorto. É o final mais torturante que eu já vi, e que provavelmente jamais verei na literatura, no cinema e até mesmo na televisão.

Termino o livro chorando, um pouco pelos personagens, sim,mas também porque Nikki ousa dar aula sobre esse livro para crianças. Não posso imaginar por que alguém gostaria de expor adolescentes impressionáveis a um final tão terrível. Por que ela simplesmente não diz para os alunos do ensino médio que sua luta para se tornarem pessoas melhores não vai dar em nada?

Tenho de admitir que, pela primeira vez desde que o tempo separados começou, estou furioso com Nikki por ensinar tal pessimismo em sala de aula. Não vou citar Hemingway tão cedo, nem quero ler outro de seus livros.

E, se ele ainda fosse vivo, eu escreveria uma carta para ele agora mesmo e ameaçaria estrangulá-lo até a morte com minhas próprias mãos, só por ele ser tão deprimente. Não é à toa que ele se matou com um tiro na cabeça, como diz o ensaio introdutório.”

trecho de O Lado Bom da Vida, leitura divertida e inofensiva, para encarar um semestre para o qual “péssimo” não é um adjetivo à altura de sua ruindade.

Onde estou?

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