Minha Mãe se Matou Sem Dizer Adeus

26/02/2013 § Deixe um comentário

“A arte é promessa utópica de reconciliação entre opostos — ela disse outro dia; aqui desta mesa-mirante me vejo de súbito no colo de minha mãe. Estamos recostados num tronco de árvore. Ela morde fatia de manga verde com sal. Bebe líquido transparente que sai de dentro do cálice. Cachaça talvez: sempre gostou dessa combinação acidificante.

Rejeito bebidas alcóolicas: trauma infantil. Mãe cambaleando pelos cômodos da casa não suscita lembranças bucólicas. Senhora decrépita abdominosa que acaba de sentar à mesa ao lado me pergunta se vale a pena viver. Ela pondera também irônica que tempo todo me pergunto se vale a pena viver. Ela pondera também irônica argumentando que durante as quatro primeiras décadas a vida não é totalmente desprezível; juventus ventus — diria mãe latinista da amiga filósofa.”

trecho de Minha Mãe se Matou Sem Dizer Adeus, do Evandro Affonso Ferreira, livro forte,  bem-escrito e cheio de tiradas incríveis, presente do Guilherme.

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