Súplicas Atendidas

22/12/2012 § Deixe um comentário

“As freiras me adoravam, porque eu era uma criança esperta e linda; nunca perceberam como eu era dissimulado, ambíguo, nem o quanto eu desprezava a austeridade e o cheiro delas: incenso e água de lavar louça, velas e creosoto, suor branco.

De uma das irmãs, a Irmã Marta, eu gostava bastante; ela dava aulas de inglês e tinha tanta convicção no meu talento para escrever que eu também acabei convencido. Mesmo assim, quando saí do orfanato, fugido, não deixei nenhum bilhete para ela e nunca mais entrei em contato: um exemplo típico do meu caráter embotado e oportunista.

Com o dedão em riste, sem saber para onde ir, peguei carona com o motorista de um Cadillac branco conversível. Um cara robusto de nariz quebrado e rosto vermelho, sardento, irlandês. Ninguém diria que era um veado. Mas era. Ele perguntou onde eu estava indo, e eu só dei de ombros; quis saber que idade eu tinha – eu disse dezoito, mas na verdade eu era três anos mais novo. Ele sorriu e disse: “Ah, eu não quero corromper a moral de nenhum menor”.

Como se eu tivesse alguma moral!

Então disse, em tom solene: “Você é um garoto bonito”. Verdade: meio baixo, um e setenta (às vezes um e 72), mas robusto e proporcional, com cabelo loiro acastanhado, olhos castanhos salpicados de verde e um rosto anguloso; me olhar no espelho era sempre uma experiência reconfortante. Então, quando Ned me pegou de jeito, achou que estava tirando um cabaço. Ho ho!

Tendo começado cedo, aos sete ou oito anos, mais ou menos, eu já tinha feito de tudo com vários garotos mais velhos e muitos padres e também com um jardineiro negro muito charmoso. Para dizer a verdade, eu era uma espécie de puta movida a Hershey’s – fazia praticamente qualquer coisa por cinco centavos de chocolate.”

trecho do Súplicas Atendidas, romance, infelizmente, inacabado do Capote. Os três capítulos que chegaram a ser publicados , com menções a J. D. Salinger, Montgomery Clift e Cole Porter e revelações de podres de ricos e famosos foram o bastante para deixar água na boca e lamentar a interrupção. 

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