Os Enamoramentos

27/12/2012 § 2 Comentários

“Talvez fosse em sua mulher que achava graça, no geral, há gente que nos faz rir mesmo sem se propor, conseguem fazê-lo principalmente porque sua presença nos deixa contentes e assim para soltar o riso basta muito pouco, só vê-las e estar em sua companhia e ouvi-las, mesmo que não estejam dizendo nada do outro mundo ou até emendem bobagens e piadas sem graça uma atrás da outra deliberadamente, mesmo assim achamos todas engraçadas.

Pareciam ser dessas pessoas feitas uma para a outra; e embora se visse que eram casados, nunca surpreendi neles um gesto edulcorado nem forçado, tampouco estudado, como os de alguns casais que convivem há anos e fazem questão de exibir o quanto continuam enamorados, como um mérito que os revaloriza ou um adorno que os embeleza.

Era, em vez disso, como se quisessem ser simpáticos um ao outro e se agradar antes de um possível namoro; ou como se tivessem tanto apreço e bem querer desde antes do casamento, ou de se juntarem, que em qualquer circunstância teriam se escolhido espontaneamente — não por dever conjugal, nem por comodidade, nem por hábito, nem mesmo por lealdade — como companheiro ou acompanhante, amigo, interlocutor ou cúmplice, na certeza de que, acontecesse o que acontecesse ou sobreviesse, ou o que houvesse que contar ou ouvir, sempre seria menos interessante ou divertido com um terceiro. Sem ela no caso dele, sem ele no caso dela. Havia camaradagem e, principalmente, convicção.”

lindo trecho  d’Os Enamoramentos, do Javier Marías, na lista de leituras desde outubro, graças a matéria do Rodrigo Levino [ tão muso! ].

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I’ve Been Thinking

24/12/2012 § Deixe um comentário

Be my boy…

Vorfreude

23/12/2012 § Deixe um comentário

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Essa é a palavra [ esses alemães … ] pra sensação que me acompanhou de setembro até a última sexta-feira. Via Other-Wordly .

Súplicas Atendidas

22/12/2012 § Deixe um comentário

“As freiras me adoravam, porque eu era uma criança esperta e linda; nunca perceberam como eu era dissimulado, ambíguo, nem o quanto eu desprezava a austeridade e o cheiro delas: incenso e água de lavar louça, velas e creosoto, suor branco.

De uma das irmãs, a Irmã Marta, eu gostava bastante; ela dava aulas de inglês e tinha tanta convicção no meu talento para escrever que eu também acabei convencido. Mesmo assim, quando saí do orfanato, fugido, não deixei nenhum bilhete para ela e nunca mais entrei em contato: um exemplo típico do meu caráter embotado e oportunista.

Com o dedão em riste, sem saber para onde ir, peguei carona com o motorista de um Cadillac branco conversível. Um cara robusto de nariz quebrado e rosto vermelho, sardento, irlandês. Ninguém diria que era um veado. Mas era. Ele perguntou onde eu estava indo, e eu só dei de ombros; quis saber que idade eu tinha – eu disse dezoito, mas na verdade eu era três anos mais novo. Ele sorriu e disse: “Ah, eu não quero corromper a moral de nenhum menor”.

Como se eu tivesse alguma moral!

Então disse, em tom solene: “Você é um garoto bonito”. Verdade: meio baixo, um e setenta (às vezes um e 72), mas robusto e proporcional, com cabelo loiro acastanhado, olhos castanhos salpicados de verde e um rosto anguloso; me olhar no espelho era sempre uma experiência reconfortante. Então, quando Ned me pegou de jeito, achou que estava tirando um cabaço. Ho ho!

Tendo começado cedo, aos sete ou oito anos, mais ou menos, eu já tinha feito de tudo com vários garotos mais velhos e muitos padres e também com um jardineiro negro muito charmoso. Para dizer a verdade, eu era uma espécie de puta movida a Hershey’s – fazia praticamente qualquer coisa por cinco centavos de chocolate.”

trecho do Súplicas Atendidas, romance, infelizmente, inacabado do Capote. Os três capítulos que chegaram a ser publicados , com menções a J. D. Salinger, Montgomery Clift e Cole Porter e revelações de podres de ricos e famosos foram o bastante para deixar água na boca e lamentar a interrupção. 

Coltrane Live in 1960, 1961 & 1965

06/12/2012 § Deixe um comentário

Vi, faz no tempo, no Pequenos Clássicos Perdidos.

Aquela dos freudianos

06/12/2012 § Deixe um comentário

aquela dos freudianos
Via Tua mãe gosta.

Sobre o Cinismo Juvenil

05/12/2012 § Deixe um comentário

“Há na beleza algo de antiquado, embora seja difícil explicar o quê. Um pintor moderno ficaria indignado se alguém o apontasse como alguém que persegue a beleza. A maioria dos artsitas de hoje parece se inspirar em uma espécie de de rancor contra o mundo, uma vez que gostam mais de provocar o sofrimento significativo do que o prazer sereno. Além do mais, muitas formas de beleza exigem que o homem moderno e inteligente se leve mais a sério do que ele é capaz.

Um cidadão ilustre de uma pequena cidade-estado como Atenas ou Florença podia, sem dificuldade, sentir-se importante. A Terra era o centro do Universo, o homem era o própósito da criação, sua cidade exibia o que o homem tinha de melhor em sua cidade. Nessas circunstâncias, Ésquilo e Dante podiam levar a sério as suas alegrias e tristezas. Eram capazes de sentir que as emoções da matéria individual, assim como os acontecimentos trágicos merecem ser celebrados em versos imortais.

Mas o homem moderno, quando assaltado, pelo infortúnio, tem consciência de ser apenas uma unidade num todo estatístico; o passado e futuro se estendem diante dele numa melancólica sucessão de derrotas triviais. O próprio homem parece um ridículo animal empertigado, que berra e se agita durante um breve interlúdio entre silêncios sem fim.’O homem desacomodado não é mais do que um pobre animal, nu e dividido”, diz o rei Lear, e esta ideia o leva à loucura por ser uma ideia estranha. Para o homem moderno, no entanto, esta é uma ideia familiar que o impele somente à trivialidade.”

observações do Russell sobre o cinismo juvenil e a beleza em “Sobre o Cinismo Juvenil”, um dos 15 artigos compilados n’O Elogio ao Ócio. Destaque para “A Arquitetura e Questões Sociais” e suas propostas visionárias de reorganização do espaço e apoio à emancipação da mulher “dona de casa”, e o lúcido “Em Defesa do Socialismo”. 

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