Um Homem: Klaus Klump

30/04/2012 § Deixe um comentário

“A vergonha não existe na natureza. Os animais sabem a lei: a força, a força, a força. Quem é fraco cai e faz o que o forte quer. A inundação, as chuvas, o mamífero mais pesado e mais rápido e o mamífero mais pequeno. Os primatas, os répteis, os peixes maiores e os mais minúsculos, a cascata: já viste algum animal cair?, não há a mais breve compaixão entre os animais e a água, o mar engoliu milhares e milhares de cães desde o início do mundo. Não há a mais breve compaixão entre a água e as plantas, entre a terra que desaba e os pequenos animais acabados de nascer. A natureza avança com o que é forte e a cidade avança com o que é forte: qual é a dúvida? Queres o quê?

Não há animais injustos, não sejas imbecil. Não há inundações injustas ou desabamentos da maldade. A injustiça não faz parte dos elementos da natureza, um cão sim, e uma árvore e a água enorme, mas a injustiça não. Se a injustiça se fizesse organismo: coisa que pode morrer, então, sim, faria parte da Natureza.

Os homens quiseram introduzir na Natureza coisas inventadas pelos fracos: foram os fracos que inventaram a injustiça para mais tarde poderem inventar a compaixão. Nem a água dócil percebe o que é isso de injustiça. Queres ser mais bondoso que uma substância química que se escreve tão simplesmente como isto: H2O? Não sejas imbecil: olha para os tanques: dispara com eles ou contra eles. Se não queres morrer beija as botas do mais forte, é isto. “

trecho destruidor do Um Homem: Klaus Klump, do querido Gonçalo Tavares, daqueles romances fortes, extremos e cheios de passagens lapidares que dão vontade de grifar todo o livro.

Nunca é tarde

27/04/2012 § Deixe um comentário

Lembrem-se, amiguinhos: nunca é tarde demais.

Sete Vidas

23/04/2012 § Deixe um comentário

“Da janela de um prédio mais baixo, um menino solta pipa, um papagaio colorido de vermelho, azul e branco, com uma rabiola enorme como eu não via desde pequena. Com agilidade, o menino move a linha fazendo a pipa costurar o espaço, em pequenas curvas nervosas.

São esses movimentos rápidos que chamaram a atenção do gato. Excitado, ele corre pelo balcão e chega a por as patas dianteiras no parapeito, talvez analisando suas possibilidades. Mas logo para, percebendo que a presa é inalcançável. E, algum tempo depois, volta a sentar-se. Desistiu.

Agora, adormeceu. Está deitado de lado, com os olhos fechados, relaxado. Apenas seus bigodes se movem de vez em quando, os fios compridos captando alguma coisa, como antenas. Logo, começa a franzir o focinho, remexe-se um pouco, mas continua dormindo. Acho que está sonhando. Outro dia os cientistas descobriram que os ratos sonham como nós, sonhos longos, com enredo, emoção – prazer e medo. E os sonhos dos gatos, como serão?

Com o que sonha meu gato?

Com seu pássaro-pipa, na certa. Com alguma presa inalcançável e fugidia que, por isso mesmo, é sua maior fonte de desejo. Ele é como todos nós.”,

trecho de “O gato e a pipa”, do bonitinho Sete Vidas – Sete Contos Mínimos de Gatos, da Heloísa Seixas, a única coisa boa de um dia de todo ruim.

Tristesse

22/04/2012 § Deixe um comentário

interpretação da Valentina Lisitsa do Étude Op. 10 No. 3, do querido Chopin, para  acalmar os ânimos e adoçar a vida.

Abenjacan, o Bokari, Morto em Seu Labirinto

21/04/2012 § Deixe um comentário

” ‘Fará um quarto de século’, disse Dunraven, ‘que Abenjacan, o Bokari, chefe ou rei de não sei que tribo nilótica, morreu no aposento central desta casa, pelas mãos de seu primo Zaid. Com o passar dos anos, as circunstâncias de sua morte continuam obscuras.’

Unwin perguntou por quê, docilmente.

‘Por diversas razões’,  foi a resposta.  ‘Em primeiro lugar, esta casa é um labirinto. Em segundo lugar, vigiavam-na um escravo e um leão. Em terceiro lugar, desvaneceu-se  um tesouro secreto. Em quarto lugar, o assassino estava morto quando o assassinato ocorreu. Em quinto lugar…’

Unwin, cansado, o deteve.

‘Não multipliques os mistérios’, disse. ‘Estes devem ser simples. Lembra a carta roubada de Poe, lembra o quarto fechado de Zangwill’.

‘Ou complexos’, replicou Dunraven. ‘Lembra o universo.’ “

do instigante “Abenjacan, o Bokari, Morto em Seu Labirinto”, n’O Aleph, do Borges, lido, finalmente, por influência de entrevistado terrivelmente genial e fofo.

À volta

12/04/2012 § Deixe um comentário

Um oferecimento de Taís [ ♥ ], via e-mail, para celebrar o retorno aos ringues.

Assédio

11/04/2012 § Deixe um comentário

Porque não tem coisa mais linda do que o Thewlis neste filme.

Onde estou?

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