Elogio à Preguiça

23/02/2012 § Deixe um comentário

“Atualmente, o trabalho (ou se não for o caso, o emprego) tornou-se o va­lor central. Todos procuram um emprego e o desemprego é a preocupa­ção dos que temem ser rejeitados pela sociedade e perder suas identidades.

Consequentemente, todos multiplicam suas atividades: o homem e a mulher modernos, quando saem do trabalho, vão cuidar dos filhos, fazer esporte, participar de associações, fazer política… Nem um minuto pode ser desperdiçado. E como as tarefas passam por acelerações, contínuas reorganizações e trans­formações, eles têm de seguir adiante, adaptando-se e mudando sob pena de serem colocados à margem da sociedade.

Donde o estresse permanente, o burnout, a depressão e, às vezes, o suicídio. O indivíduo moderno, isolado, ato­mizado, corre o dia todo. Ele é tomado por uma “obsessão de plenitude” pela qual paga muito caro, principalmente com “a perda de si”.

Na realidade, os seres humanos têm uma necessidade vital de preguiça, ócio, ler­deza, de perder tempo. Como escreve admiravelmente Paul Valéry :

Ces jours qui te semblent vides
Et perdus pour l’univers
Ont des racines avides
Qui travaillent les déserts

Eles precisam de tempo para pensar e agir corretamente. Precisam pensar: pen­sar, no sentido intrínseco do termo, significa construir uma reflexão nova, um paradigma desconhecido e não apenas repetir, acreditando estar sendo original, os estereótipos, os prets-à-penser culturais advindos do “caráter social” (E. Fromm) ou do “imaginário social” (Castoriadis) predominantes em uma determinada época.

É verdade que também é possível pensar em termos do paradigma comum, po­rém é preciso saber identificar e escolher os dados, reuni-los, combiná-los, torná-los operacionais para que possam resultar em conclusões não previstas.

Pensar significa ainda ser capaz de reflexividade, ou seja, de voltar-se para si, de compreender as razões profundas que nos fazem “pensar” tal coisa e não outra, que nos fazem escolher tal problemática e não qualquer outra.”

Eugène Enriquez, definitivo, em “O ócio e a construção de si mesmo” em Mutações: Elogio à Preguiça, compilação dos textos de apresentação das conferências sobre o tema, realizadas entre agosto e outubro de 2011.

Interessados encontram todos os deliciosos textos, da autoria de lindos como o Vladimir Safatle, Oswaldo Giacoia e Adauto Novaes, aqui.

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