O emprego do tempo

14/01/2012 § Deixe um comentário

“Sim, meu caro Lucílio, reivindica a propriedade da tua pessoa; recolhe e põe em segurança a tua pessoa; recolhe e põe em segurança o tempo que até agora te foi subtraído, roubado, ou que tu deixavas escapar. Acredita-me, as coisas se passam exatamente como estou dizendo: alguns momentos nos são arrancados, outros escamoteamos, outros mais os escorrem pelos dedos.

Todavia, a perda mais escandalosa é a que sofremos devido à nossa negligência. Se prestares bastante atenção, verás que passamos a maior parte da vida fazendo as coisas mal, uma boa parte sem fazer nada, e toda a nossa vida fazendo algo distinto do necessário.

Cita-me um homem que saiba darão tempo o seu prêmio, reconhecer o valor de um dia, compreender que morre a cada dia. Nós nos enganamos quando pensamos ver a morte diante de nós: ele já está em grande parte atrás de nós. Tudo que pertence ao passado é do âmbito da morte.

Portanto, meu caro Lucílio, age como dizes na tua carta: sê o proprietário de todas as tuas horas. Serás menos escravo do amanhã, se te tornares dono do presente. Enquanto a remetermos para mais tarde, a vida passa. Nada, Lucílio, nos pertence; só o tempo é nosso. É o único bem, fugitivo e submetido ao acaso, que a natureza os deu: no entanto, qualquer pessoa pode provar-nos dele.

Vê como os homens são tolos: aceitam que lhes sejam contados como grandes serviços os favores mais ínfimos, mais miseráveis e que não têm nada de insubstituível; mas ninguém se julga devedor do que quer que seja se lhe é dado tempo, ao passo que este é o único favor que não se pode dar, mesmo com o reconhecimento.

Talvez me perguntes o que faço, eu te dou conselhos. Eu te responderei francamente: não posso assegurar que não perco nada, mas posso dizer o que perco, como e por quê. Posso aperceber-me da minha pobreza. Mas a maior parte dos que passam necessidades sem serem responsáveis por isso são desculpados, mas nunca auxiliados.

Como concluir? Ao meu ver, o homem que se satisfaz com o pouco que lhe resta não é pobre; mas quanto a ti, prefiro que conserves o que possuis: começarás a servir-te disso em tempo útil. Lembra-te deste ditado dos nossos ancestrais: ‘Já é tarde demais para fazer economias quando se chega ao fundo do tonel: não sobra muita coisa e o que sobra é o menos bom.’ Adeus”

Sêneca, sempre ele, sempre sábio, em ‘O Emprego do Tempo’ “As Relações Humanas- A Amizade, os Livros, a Filosofia, o Sábio e a Atitude Perante a Morte”, finalmente devolvido à biblioteca, a despeito do pesar. 

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