A morte de Ivan Ilitch

25/02/2011 § Deixe um comentário

“E quanto mais as recordações de Ivan Ilitch se afastavam da infância, mais se aproximavam do presente, mais as alegrias que vivera lhe pareciam duvidosas e ocas. Isso começava pela Escola de Direito: ali conhecera ainda momentos verdadeiramente bons; ali conhecera a alegria, a amizade, a esperança. Mas, nas classes superiores, esses momentos faziam-se já mais raros. Mais tarde, no tempo em que trabalhara como funcionário junto ao governador, tivera também alguns belos minutos: amara mulheres. Depois, tudo se confundia e os belos instantes iam rareando de novo, cada vez mais…

Seu casamento… Um acaso; e as desilusões, o mau hálito da mulher, a sensualidade, a hipocrisia… Depois, o seu serviço, tão insípido, as preocupações financeiras. E isso durava um ano, dois anos, dez anos. Sempre a mesma coisa. E à medida que os anos se escoavam, a vida se tornava mais vazia, mais insossa. “Era como se eu descesse uma ladeira, supondo que estivesse a subi-la. E, de fato, perante a opinião pública eu subia, mas na realidade deslizava declive abaixo, a vida me escapava… E aí está! Tudo se acabou. Morre agora!”

“Mas que significa isto, afinal? Por quê? Impossível! Não é possível que a vida seja tão estúpida, tão má. E se é realmente má e estúpida, por que há de ser preciso morrer e morrer sofrendo? Há nisso qualquer coisa que não entendo.”

“Talvez eu não tenha vivido como devia – pensou. – Mas não é possível, pois sempre fiz o que era preciso fazer.” E afastava logo, como inconcebível, a única solução de todo o enigma da vida e da morte. “Que queres agora? Viver? Viver como? Viver como vivias sendo juiz, quando o oficial de justiça anunciava: “A Corte!” A Corte! – repetia-se ele. – Ali estava o julgamento. Entretanto, não sou culpado! – clamou com raiva. – Por quê?

Parou de chorar e, com o rosto voltado para a parede, pôs-se a refletir sempre na mesma coisa: por quê? por que esta coisa aterrorizante?

Por mais que fizesse, contudo, não achava resposta. E quando surgia dentro dele aquela idéia – o que se dava freqüentemente – de que tudo aquilo provinha do fato de não ter vivido como devia, lembrava-se logo da correção de sua vida e enxotava para longe essa idéia absurda.”

trecho do angustiante e nervoso A Morte de Ivan Ilitch do Tolstói. Em uma palavra: dores.

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