Pequenos Burgueses

“Em seu artigo intitulado ‘Notas sobre a mentalidade pequeno-burguesa’, Górki escreve que esta mentalidade consiste de

‘uma estrutura da alma do atual representante das classes dominantes. As principais particularidades da alma pequeno-burguesa são: um senso de propriedade distorcido, um desejo tenso de que sempre haja tranquilidade dentro e fora de si, um medo intenso diante de qualquer coisa que possa, de uma forma ou de outra, perturbar esta tranquilidade; e uma aspiração, persistente, de poder encontrar uma explicação para tudo aquilo que venha a oscilar este equilíbrio que se estabeleceu na alma, ou que possa destruir os pontos de vista, já estabelecidos, sobre a vida e as pessoas.”

trecho da introdução, de Elena Vássina, a Pequenos Burgueses, peça absurda e atemporal do grande Górki.

Eudaimonia

Eu me contento com a eudaimonia, mas, claro, como tio Arthur a concebe. Mais sobre isso, aqui.

Zazie no Metrô

Ela beberica o chope, com distinção, não foi fosse pelo auricular levantado.
- E não é só isso – é o que ela acrescenta-, eu, que você tá vendo aqui na sua frente, pois é, eu depus no processo, e ainda por cima em sessão fechada.
O sujeito não reagiu.
- Não acredita?
- Claro que não. A lei não permite uma criança depor contra seus próprios pais.
- Pra começo de conversa, tinha mais de um dos pais, em primeiro lugar, e depois o senhor não sabe de nada. O senhor tinha que ir lá em casa em Saint-Montron, eu ia te mostrar um caderno onde eu colei todas as matérias de jornal que falam de mim. Até porque o Georges, enquanto a mamãe foi pra cadeia, me deu de Natal uma assinatura do Argus da Imprensa. Conhece esse Argus da Imprensa?
- Não – diz o sujeito.
- Lamentável. E anda quer conversar comigo.
- Por que você teria testemunhado em sessão fechada?
- Ficou interessado, hein?
- Não especialmente.
- Mas que dissimulado.
Ela dá um gole no chope, com distinção, não fosse pelo auricular levantado. O sujeito não dá um pio (silêncio).
- Vamos – Zazie termina dizendo – também não é pra ficar magoado assim. Vou te contar a minha história.
- Estou ouvindo.
- Então. Preciso dizer que a mamãe ela não ia ca cara do papai, então o papai ficou triste por conta disso e começou a encher a cara. Era cada garrafão que ele mandava pra dentro. Então, quando ele ficava daquele jeito, tinha que ficar longe dele, ia sobrar pau até pro gato. Que nem na música. Conhece?
- Sei – diz o sujeito.”

trecho do divertidíssimo Zazie no Metrô, do Raymond Queneau, leitura ainda na conta da influência do entrevistado fofo da matemática.